domingo, 7 de fevereiro de 2010

A caixa

Abre a caixa de retalhos, espalha a vida pela cama. Pequenas notas de espaçados anos, letras infantis, desenhos, assinaturas do nome que não será mais escrito pelo próprio punho. Um vida tão breve com tantas recordações. Como será chegar aos 100? Quantas caixas darão conta de tantos detalhes em tão longa jornada?

Cartas do primeiro amor, do amor do meio, do amor que nem lembrava que teve - provavelmente platônico como em 90% dos casos. Carta de amor imaginário pode ser qualquer coisa, do desenho tosco feito em guardanapo a anotações de biologia de uma aula perdida nas lembranças.

Se desfazer de tudo isso ou não? Não é pelo amor novo, é por desapego mesmo. Tem quem jogue o passado pelo ralo por causa da nova brisa, mas quando os ventos param, ficam dois vazios: do fim do sonho e da vida esquecida. Quero me desfazer dessas coisas que um dia guardei jurando ser eternas no peito. Tola eu era, tola eu sou e sempre serei. Poucas coisas são eternas para mim hoje, definitivamente bilhetes trocados em sala de aula sobre uma paquera não estão mais nesse seleto hall.

A vida e o rio são tão parecidos. Podemos nos sentar à margem ou mergulhar em refrescante experiência, porque as águas são sempre diferentes. Mesmo quando sublimes elevam-se aos céus e nos molham a face delicadamente ou com força vibrante a retornar ao leito, no ar a vida se misturou, desceu e pincelou apenas o passado. São pingos esboçando o passado na terra seca das margens e se pingar demais borra tudo, o rio de agora transborda, perde seu leito e acaba com tudo.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Doações ao Haiti

Impossível não pensar em nossos irmãos no Haiti, sofrendo pelas forças da natureza, pelo socorro ainda ineficiente, pela barbárie nas disputas por comida, água ou qualquer objeto que possa virar moeda de troca.

A Embaixada do Haiti no Brasil está recebendo doações através de uma conta corrente aberta no Banco do Brasil especificamente para os atingidos pelo terremoto do dia 12 de janeiro.


Embaixada da República do Haiti
CNPJ 04.170.237/0001-71
Agência 1606-3 / Conta Corrente 91.000-7.


*Os depósitos podem ser feitos de qualquer parte do Brasil e também do exterior.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Quando dezembro escorre pelos dedos

Dezembro chega e pipocam as avaliações dos feitos de mais um ano que se vai. Promessas de fazer diferente e melhor os próximos dias também não faltam, é sempre assim. A gente, de repente, tem uma facilidade de planejar os meses que seguirão, mas nem sabe o que será das próximas horas.

Já fiz muitos planos, jurei mudar vários pontinhos, já disse que ia fazer e acontecer anos e anos e também me frustrei comigo mesma por não conseguir realizar tantas promessas. Prometer não é coisa fácil não, ainda mais quando a gente não considera que o destino pode puxar nosso tapete e obrigar a seguir outro caminho, às vezes contraditório. Mas, seguindo o raciocínio que vem no ar de dezembro, minha análise de 2009 é até bem boa.

Não fiz promessas, começa por aí a história. Peguei um caderno e escrevi várias metas. Separei em curto, médio e longo prazo, em metas encadeadas, por aí vai. Iniciei muitos processos, concluí outros, guardei alguns pra 2010. Não fiz nenhuma meta nova não, estou me conformando com o que tenho de cumprir ainda. Aliás, essa foi uma das metas não escritas (ainda tiveram essas). Não me sufocar de tarefas para justificar meu não-viver foi uma delas. Ter um tempo (muito tempo agora) livre é um exercício de imenso esforço pra mim, através do qual eu tenho aprendido a lidar com ansiedade, expectativas, pensamentos borbulhantes. Os hiatos são os períodos de maior produção interna.

Comecei a me convencer que tudo é 50%. A parte que me cabe, apenas. O resto depende dos outros, de conhecer as limitações alheias, seus tempos. Eu boto na marcha, o outro acelera e vice-versa. Sozinha não faço tudo, sabendo disso me cobro menos, não posso ser perfeita para me aceitarem enfim, tenho minhas falhas como todos e pensar “por isso tudo (e não apesar de) você é um ser humano belo e digno” é ótimo. Por ser rabiscada, dobrada, amassada, impura, a folha serve para escrever uma história emocionante.

Olhei meu caderninho de metas e há tantas coisas aqui escritas. Pontuei algumas pra saber o que cumpri, mesmo parcialmente, e me sinto feliz de ter conseguido além do que documentei. Vou renovar esses que são meus verdadeiros votos de feliz ano novo para mim mesma e vou passar tudo que houve para além daqueles 50% meus para o papel. A avaliação continuará e é assim que deve ser, tomando consciência do poder de investimento que tenho sobre minha vida.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Verão castanho

Não tem vela pra santo que ilumine o seu caminho, nem reza da benzedeira mais fervorosa da cidade. Quando não quer, tá decidido, não volta atrás. O coração da moça se tranca a sete chaves feitas de cobre, grandes, pesadas, penduradas depois perto do armário velho da despensa. Ficam lá levando poeira e teias de aranha até o dia em que a moça vai buscá-las entediada.
Toda desilusão fica assim, depois de algumas lágrimas, um suspiro longo e intenso, nenhum sorriso. Assim ficará por uns dias até não conseguir mais. Quando o tédio a consome, ela vai devagar até a despensa, de braços cruzados, cara de poucos amigos. Olha as chaves, pensa, se faz de indiferente. O ritual é antigo, mas de uma aflição recém-nascida. Àquela altura, até sua mãe se desesperou, contou para as amigas, os parentes, os vizinhos, “o que fazer, moça tão bonita e inteligente, não arruma um rapaz que preste”.
A moça continua parada fitando sua liberdade. Coração vazio é a prisão mais cruel do mundo, quem esquece o pulsar dentro do peito não existe, vegeta, está morto sem ter-se enterrado. Ela bem sabe que seu luto já passou, quer sorrir, rodar seu vestido moleca e sedutoramente, chega de ficar muda. Seus olhos castanhos já trazem o calor das altas estações, brilhos de estrelas, faíscam qual brasas em fogueira de São João. O corpo formiga, mãos suadas, arrepios no ventre, o ar que falta. Coragem, ela pega as chaves e vai se destrancar.

domingo, 22 de novembro de 2009

Faz tempo

Nem lembrava a última vez que estive aqui. Pensando como costumo agir com roupas, papéis, objetos diversos, se não me recordo que aquilo existe, é porque posso jogar fora perfeitamente. Quase pus um fim, mas me impediram, ainda bem. É bom saber que, mesmo sem querer dizer qualquer coisa, tenho por onde escoar meus pensamentos. São muitos no momento, mas não quero falar não, quero só pensar. Preciso só entender se esse vazio é de falta ou é um cantinho que a vida se encarregou de construir para abrigar um futuro próximo.