Não tem vela pra santo que ilumine o seu caminho, nem reza da benzedeira mais fervorosa da cidade. Quando não quer, tá decidido, não volta atrás. O coração da moça se tranca a sete chaves feitas de cobre, grandes, pesadas, penduradas depois perto do armário velho da despensa. Ficam lá levando poeira e teias de aranha até o dia em que a moça vai buscá-las entediada.
Toda desilusão fica assim, depois de algumas lágrimas, um suspiro longo e intenso, nenhum sorriso. Assim ficará por uns dias até não conseguir mais. Quando o tédio a consome, ela vai devagar até a despensa, de braços cruzados, cara de poucos amigos. Olha as chaves, pensa, se faz de indiferente. O ritual é antigo, mas de uma aflição recém-nascida. Àquela altura, até sua mãe se desesperou, contou para as amigas, os parentes, os vizinhos, “o que fazer, moça tão bonita e inteligente, não arruma um rapaz que preste”.
A moça continua parada fitando sua liberdade. Coração vazio é a prisão mais cruel do mundo, quem esquece o pulsar dentro do peito não existe, vegeta, está morto sem ter-se enterrado. Ela bem sabe que seu luto já passou, quer sorrir, rodar seu vestido moleca e sedutoramente, chega de ficar muda. Seus olhos castanhos já trazem o calor das altas estações, brilhos de estrelas, faíscam qual brasas em fogueira de São João. O corpo formiga, mãos suadas, arrepios no ventre, o ar que falta. Coragem, ela pega as chaves e vai se destrancar.
terça-feira, 1 de dezembro de 2009
Verão castanho
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Maria Laura
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domingo, 22 de novembro de 2009
Faz tempo
Nem lembrava a última vez que estive aqui. Pensando como costumo agir com roupas, papéis, objetos diversos, se não me recordo que aquilo existe, é porque posso jogar fora perfeitamente. Quase pus um fim, mas me impediram, ainda bem. É bom saber que, mesmo sem querer dizer qualquer coisa, tenho por onde escoar meus pensamentos. São muitos no momento, mas não quero falar não, quero só pensar. Preciso só entender se esse vazio é de falta ou é um cantinho que a vida se encarregou de construir para abrigar um futuro próximo.
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quinta-feira, 23 de abril de 2009
Coração em queda livre
Foram três horas rolando na cama. Mudava de lado, olhava pro teto, sorria, fechava os olhos, mas o sono não vinha. Eu não queria que viesse, na verdade. Eu não queria estar no meu quarto, confesso também.
Eu não roo unhas, nã como cabelo, não fico com a mania insuportável de abrir e fechar canetas, não balanço pernas, enfim, minha ansiedade não se manifesta de uma maneira mais "comum". Ela aparece assim em calafrios, suspiros longos, mãos geladas, até com um nó na garganta. Calor mesmo, uma coisa.
A gente passa tanto tempo agindo de uma maneira e quando decide mudar fica assim. Será que vai dar certo? Mas eu sempre me pergunto se vai dar certo em todas as ocasiões! Não importa o jeito como eu faça, a dúvida da insegurança tá lá. E eu confesso também que fiquei mais ansiosa depois que me vi ali, noutra pessoa, agindo como eu. Eu pensei "vai dar errado porque eu fazia assim e alguém fazia assado". E eu estou agora na posição de quem fazia as coisas de uma maneira que "me detonava". Eu sou minha própria bomba. Fiquei nervosa por ver alguém como eu temendo uma outra pessoa que tantaz vezes me fez voltar atrás, e agora eu sou essa pessoa que intimida. Mas é fachada, eu juro que é. Tou me roendo tanto por dentro, tou segurando nas últimas ponta esse corpo, mas desculpe, eu preciso ser esse "bicho papão", preciso fazer você tremer porque você me faz sentir assim também.
Não é guerra, não é nada. É só uma pessoa tentanto fazer diferente, aquele caminho que eu trilhava pra ser feliz não me levou a canto algum, então o que me resta é tentar e tentar sem fazer mal a ninguém. Eu não faço mal, isso é coisa do coração. A gente sabe que é. O coração que me fez partir assim pro mundo, um olho fechado e outro aberto, mas sorrindo em queda livre. Que Deus tenha uma corda pra me segurar, não tem mais jeito não. Tomei a decisão.
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terça-feira, 21 de abril de 2009
Minha receita
Pra dias chuvosos como hoje, meu Clube da Esquina nas alturas. Ou Beirut baixinho para não acordar quem tira a sesta.
"Chorando pra Pixinguinha" ao cruzar a Ponte, ida e volta, olhando cada barquinho da Guanabara, os faróis no engarrafamento, as máquinas do porto que não descansam.
Se o silêncio não disser mais nada, Franz Ferdinand no fone, queixo levantado e passos largos e quebrantes na rua, porque senão desanda.
Parada de pés juntos, mão no casaco esperando o sinal abrir, o "Quadrafônico" de Alceu e Geraldo.
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sábado, 28 de fevereiro de 2009
Fast declaration
To my girls,
We've been through good times together (and sometimes separated and through bad moments too). Just to say I love you all. Very much. In english, like a great bee or bitch that we adore.
Kiss,
Donda
*For Sarah, Maya, Lu, Dani, Márcia, Fê.
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sábado, 24 de janeiro de 2009
Não se chega ao meio termo se não houver o exagero
A cada gênero que vem mostrar-se com todo fôlego, muitos “porquês”, “pra quês”, muitos “melhores”, “diferentes” surgem e o ser apenas vira uma coisa nebulosa e bem complicada.
Sempre gostei de música. Velha ou nova. Aplico esse adjetivos apenas para dizer em relação à data de criação porque ser velho não significa distante e nem sempre o novo é semelhante. Adoro música velha. Música história, música vida, música raiva, música vitória, música esperança. Adoro música e vivo de ouvir meus cds e mp3 (que assim que posso, privilegio os artistas comprando seus filhos) todos os dias. Gosto do cheiro do encarte, de ler quem são os autores, quem produziu, os motes, gosto de ouvir os instrumentos, modular, pedir emprestadas as interpretações para cantar no chuveiro, gosto de tudo que tem a ver com isso. Música é isso e muito mais. É música.
Há um tempo tomei coragem de fazer aulas de canto e para minha surpresa (ou não) tenho me saído muito bem. Respirei mais um pouco e tomei mais coragem para me inscrever numa escola de choro e entrar num estúdio para gravar o áudio de teste. Agora aguardo o resultado e enquanto isso tomo mais coragem para andar mais um pouco. Mas algumas coisas vêm para mostrar o que é possível se fazer com o que se tem.
Quando acompanhei a minissérie “Maysa” quis conhecer uma cantora cujo registro da voz não tinha em mente, apenas seus olhos vagamente aparecia para mim. O que significou a trajetória de Maysa em vídeo foi incrível para mim. Inegavelmente ela vivia a canção e sabia tocar quem a ouvisse porque cantava com verdade. De verdade.
Esse meu encantamento coincidiu com o dia em que ouvi as músicas que gravei no estúdio e me permiti olhar para o que faço de outra maneira, menos cruel e ácida. Coincidiu com as palavras da minha professora que me ajudou a interpretar canções muito difíceis, profundas e belas. “O cantor fica no limite da emoção, tem que se envolver, mas sem perder a voz”. Eu entendi quando vi na TV isso.
Não estou aproveitando a rebaba da produção, mas tenho ouvido e muito os discos dela e de outros artistas que admiro demais e sempre: Elizeth, Ary Barroso, Carmen Miranda, Cartola, Noel, Vinícius. Quando escuto “Ne me quitte pas”, “Dia de vitória”, “Mulher carioca”, “Menino travesso” e outras tantas, “Barquinho”, “Maninha”, “Salve a preguiça, meu Pai”, move uma coisa lá dentro, uma coisa que dá vontade de sorrir nas ruas, andar no ritmo da canção, uma coisa que me comove e que não me dá vergonha de chorar no ônibus, é emoção.
Dia desse li a matéria de Paulo da Costa e Silva para a Revista de História da Biblioteca Nacional foi um tempero a mais nesse momento meu. Paulo descreve a transição da vida samba-canção para a nova bossa que surgia no Rio de Janeiro. O samba-canção ficou velho, era muito melodramático, exagerado, transbordando em desespero, enquanto a bossa nova “derramava para dentro”, como descreveu Chico Buarque em certa ocasião.
A ruptura se deu em versos, melodias, harmonia, títulos, tudo na bossa nova é mais econômico, enxuto e com o melhor: soa tão emocionante quanto as músicas de “antigamente”. Li o texto pensando no que hoje presencio nas ruas, nos bares: muita gente cantando o que é do tempo da vovó, embalando noites e fazendo nome assim. Muito se fala também numa crise de criatividade, falta de pessoal que componha inteligentemente. Acho que não é por aí que a banda toca.
Tem quem faça música boa sim, mas não se tem ouvidos como antes. Isso realmente é uma pena. O que se diz música de antigamente, na verdade é música de verdade, boa, com vontade de ser. E quem compõe hoje sabe que tem que beber nessas águas para não correr o risco de pagar mico se dizendo a reinvenção da MPB. Só se faz algo novo quando se conhece o que existe e se renegam o passado, o risco de passar por ridículo é muito grande.
O maior exagero de hoje se chama indiferença. E quem foge disso corre atrás do que é passional, visceral. Taí todo mundo cantando as coisas de 1936, 1954, 1958... Realmente é importante frisar a reformulação da bossa nova na nossa sonoridade, mas isso só pôde acontecer porque era “desequilibrada” a coisa. E os movimentos de ruptura funcionam assim desde todo o sempre: equilíbrio, desequilíbrio, crise, renovação, estabilidade e vai tudo outra vez. Maysa era viva, Lupiscínio era vivo, Mário Lago era vivo, Herivelto Martins era vivo, essa galera toda tinha sangue nas veias, como todos os que vieram depois, sem dúvida. Sangue e amor.
E quem dera que muitos cantassem com aqueles vibratos todos e tivessem uma extensão vocal daquelas. E quem dera que muitos compusessem e tocassem a melancolia tão bem. Acredito que ainda falta um bom chão para se valorizar o que aquelas pessoas foram e fizeram e, principalmente, entender que o espaço de todos está garantido, desde que se faça com o sentimento mais verdadeiro. E sem economias, por favor.
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Maria Laura
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